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Vitor Lourenço

Matrix e a verdadeira vida

26/04/2004

Cristo salva de quê? Não estou morrendo afogado! - disse o
colega, ao ver o adesivo colado no vidro da minha brasília.
Na hora, dei uma resposta padrão, evangelística. No
entanto, senti que eu mesmo não conseguia verbalizar
convincentemente um "Cristo salva" para gente como aquele
colega. O que poderia ser dito ao jovem saudável, de
família abastada e vida profissional promissora que o
fizesse ver a necessidade de salvação? Dizer-lhe que nasceu
em pecado, que o salário do pecado é a morte, mas que em
Cristo pode ter vida abundante, se o receber em
arrependimento e fé, como senhor e salvador de sua vida?
Sim, certamente. Mas não sentiria estar comunicando.
Precisava de uma parábola.

Quem poderia supor que ela adviria da trilogia Matrix? Pois
veio. Assisti aos três filmes, aficionado que sou por
tecnologia de ponta, ficção científica e efeitos especiais.
Mas fiz uma leitura teológica.

Não sei se intencionalmente, Matrix versa sobre trevas e
luz; perdição e resgate; escravidão e redenção.

Ao reagir à invasão alienígena de seres tanto mecânicos
quanto orgânicos e espirituais, os humanos do futuro pensam
que podem cortar-lhes a fonte de energia, cobrindo o sol do
planeta com uma nuvem atômica de proporções apocalípticas.
Mas os invasores descobrem uma nova fonte de energia: os
próprios seres humanos, agora cultivados em imensas
plantações. Cada pessoa que nasce é colocada num casulo
gosmento e ligada a tubos que lhe fornecerão alimento e
lhes extrairão calor do corpo. E os humanos passam a vida,
de nenê a adulto, como baterias humanas, a energizar essa
rede formidável.

O detalhe é o tubo que entra na cabeça de cada um, pela
nuca. Por esse, hã, terminal, o sistema fornece a cada
vítima um sonho, uma "vida". O computador que tudo
gerencia, chamado Matrix, lhe "fornece" estudos, trabalho,
família, vida profissional e tudo o mais, instilado, como
um filme, diretamente no cérebro. E as pessoas não têm
consciência da realidade real: de que estão vegetando no
casulo gosmento, em posição fetal. Quando morrem, ou perdem
a "energia", com a idade, são transformadas em compostos
alimentícios para aqueles que vão nascendo. Reciclagem. A
cena da grande "plantação", com sua malha de tubos e
adutores, é tétrica.

A história começa com um resgate. O líder de um pequeno
grupo de pessoas "desplugadas", que vive na realidade real,
lutando contra os invasores, passou a vida à procura
daquele que teria o dom de "ver" a Matrix, com seus
mecanismos, programas e fraquezas. Teria, portanto, o poder
de conduzi-los à vitória. Então, resgata da Matrix um rapaz
que, mesmo vivendo a vida fictícia fornecida pelo sistema,
em seus sonhos tem visões da "realidade real" e desconfia
da "realidade artificial" em que está. "Deve haver algo
mais", pensa ele. E, mesmo na vida alienada, torna-se um
hábil hacker de computador, que invade o sistema, rouba e
vende informações sigilosas - informações sobre a
verdadeira realidade, eu concluo - e foge da polícia dos
invasores.

Interessante: a tal ponto essa "vida" criada pela Matrix é
"real" e satisfatória que muitos, ao serem "desplugados",
pedem para retornar. Não suportam a realidade real. Nesta,
eles são renegados, vivendo nos escombros da civilização
pós-cataclisma nuclear; naquela, ordeiros cidadãos, vivendo
uma vida normal, organizada e prazerosa.

E, então, eu me dou conta da "parábola"; de que somos
"escolhidos"; "desplugados" por Cristo de um sistema
diabólico, onde já nascemos "mortos" (Ef 2.1) em uma
"realidade falsa". Imediatamente ouço outra vez meu colega
dizer: "Cristo salva de quê?"

Coitado de Moisés! Imagino-o tendo de suportar de seus
irmãos, no Egito:

- Libertação de quê?

E a resposta "pouco convincente":

- Desta vida falsa, desta vida de escravidão.

- E para onde vamos, Moisés?

- No momento, para o deserto.

Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em
Brasília. É autor de, entre outros, Igreja e Sociedade - o
desafio de ser cristão no Brasil do século XXI e Icabode -
da mente de Cristo à consciência moderna.


rubem@amorese.com.br
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Redação / JBEN

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